Trabalho realizado pela enfermeira Isabel Salazar, estudante do curso de Mestrado em Enfermagem com especialização em Enfermagem Médico-Cirúrgica da Universidade Católica Portuguesa

Introdução

 

As necessidades das pessoas em cuidados de saúde constituem, de acordo com Silva (2007), a alavanca fundamental às mudanças nos sistemas de fornecimento de cuidados. A enfermagem, pelo seu mandato social, pode constituir um recurso valioso do Sistema de Saúde, para responder gradualmente às necessidades de saúde das populações.

A inversão da pirâmide geracional nas sociedades ocidentais, originou uma realidade que favorece o aparecimento de doenças (Berger & Mailloux-Poirier,1995), tornando-se expectável que o número de doenças com maior representatividade nesta faixa etária aumente, sendo o aumento da taxa de incidência do tumor colorretal em Portugal, um exemplo dessa situação (International Agency for Research on Cancer - GLOBOCAN, 2012). Se tivermos em consideração que a cirurgia com recurso à realização de ostomia é frequentemente a opção no tratamento nestas situações e considerando que, em Portugal, atinge habitualmente a população na faixa etária dos 60 aos 70 anos (Barata, 2010), podemos prever que o número de pessoas idosas com ostomias de eliminação intestinal irá também aumentar.

A literatura refere que o impacto negativo da ostomia na qualidade de vida da pessoa se encontra relacionado sobretudo com a alteração na função corporal, traduzida em sintomas como a frequência, urgência e incontinência fecal. Estudos nesta área (Krouse et al., 2009; Popek, 2010) revelam que é a perda de controlo de fezes e gases a principal preocupação das pessoas ostomizadas, a nível físico. À perda de controlo associam-se sentimentos de frustração e humilhação, com graves repercussões no processo de adaptação à ostomia (Popek, 2010).

É aceite que a presença de uma ostomia interfere nas metas individuais, expectativas, padrões e estilo de vida da pessoa, com repercussões na sua saúde física, psicológica e social (Taylor & Morgan, 2010). Estas repercussões afetam a qualidade de vida da pessoa ostomizada, já que esta se caracteriza por abranger todos os domínios de vida da pessoa. Ora, se a pessoa ostomizada avalia as diferentes dimensões da sua vida como prejudicadas, a presença de uma ostomia gera desafios em termos de qualidade de vida, sendo também um desafio colocados aos enfermeiros.

Ostomias de Eliminação

 

As designações estoma, ostomia, ostoma ou estomia são utilizadas para se referirem à exteriorização de qualquer víscera oca através do corpo e dependendo do segmento corporal de onde provêm são definidas distintamente (Santos, 2015). As ostomias classificam-se de acordo com o tempo de permanência, a localização anatómica e a sua função. As características dos efluentes e a frequência da eliminação implicam cuidados específicos com a pele periestomal e consequentemente com a escolha do tipo de dispositivo a utilizar. Uma boa localização do estoma permitirá uma boa aderência do dispositivo de recolha (Cardoso, 2011; Miranda, 2013).

  1. Características do estoma saudável
  • Coloração vermelho vivo;
  • Protruso ou encontrar-se no mesmo plano da pele;
  • Mucosa Húmida;
  • Indolor à palpação;
  • Localização adequada;
  • Funcionante (fezes e urina)
  1. Características das diferentes ostomias de eliminação
Tipo de ostomia Características dos efluentes Tipo de saco
Ileostomia Liquidas Aberto e com filtro
Colostomia ascendente Liquidas/semi-liquidas Aberto e com filtro
    Aberto (semi-liquidas)
Colostomia transversa Semi-liquidas/moles Fechado e com filtro(efluentes moles)
Colostomia descendente Moles Fechado e com filtro
Colostomia sigmóidea Sólidas Fechado e com filtro

Dispositivo de Ostomia Sistema de Duas Peças

 

Para os ostomizados, quanto menor o número de troca das bolsas coletoras, menor os danos na pele, logo a utilização de dispositivos de peça única podem contribuir para o aparecimento de lesões na região periestomal.

Os sistemas de duas peças são constituídos por dois componentes, o saco e o protetor cutâneo. Permite a substituição apenas do saco sempre que necessário, permitindo a permanência do penso protetor por uma tempo mais prolongado, contribuindo para uma boa manutenção da pele, particularmente as mais sensíveis (população idosa).

  • Protetor Cutâneo Flexível (penso plano com adesivo)

O seu interior é confecionado com proteção cutânea total (elevada proteção cutânea da zona central),e o exterior em adesivo micro poroso hipoalergénico. É flexível pelo que pode ser usado quando não houver alteração a nível da epiderme.

  • Protetor Cutâneo Convexo (penso convexo)

Permite preencher os espaços característicos das irregularidades cutâneas, como as depressões que permitem as infiltrações. Devido à sua angulação interna permite adaptar-se mantendo um ajuste permanente durante a sua utilização.

  • Saco aberto com sistema de drenagem

Permite esvaziar o seu conteúdo, tornando-o um acessório reutilizável.

Vantagens do uso de Dispositivo de Sistemas de Duas Peças

 

O uso dos dispositivos de sistemas de duas peças permite a substituição do saco as vezes que foram necessárias permitindo que o penso protetor permaneça na pele vários dias poupando-a das agressões da sua reaplicação. O uso os sacos abertos, apresentam-se como uma ótima opção em contexto de serviço de urgência/cuidados intensivos pois permitem o esvaziamento dos efluentes de características liquidas e a sua correta quantidade e avaliação das características.

Deste modo, a sua utilização permite:

  • Troca da bolsa coletora sem deslocar a barreira protetora da pele periestoma;
  • Facilita o acesso e visualização do estoma (avaliar características, aspeto, drenagem, etc);
  • Facilita o autocuidado;
  • Fornece uma proteção adicional para o estoma, porque conserva-o dentro do estojo que se cria com a junção da placa e a bolsa;
  • Rentabiliza os recursos humanos e de material, pois permite apenas a troca do saco sempre que necessário e não do dispositivo completo;
  • Contribui para melhorar a eficiência através da adequada utilização do material e da possibilidade de ajustar os diferentes tipos de sistemas às necessidades reais do utente (p.e: uso de material de urostomia em ileostomia/ colostomias com efluentes de caraterísticas liquidas). Permite a troca apenas da placa apenas quando necessário em doentes instáveis;
  • O uso do saco com torneira permite o controlo da eliminação intestinal em utentes com desequilíbrios hidroelectrolíticos permitindo uma monitorização do balanço hídrico (ou por exemplo, permitir a conexão/drenagem a um saco de maior capacidade durante longos períodos);
  • Opção por placas com medidas recortáveis permite a rentabilização do material, pois permite a adaptação à forma e tamanho exato do estoma;
  • Opção por sacos transparentes e opacos, com as vantagens de cada um e com a possibilidade de os usar e/ou ajustar o seu uso à realidade e estado de saúde de cada utente;

Conclusão

 

A Ordem dos Enfermeiros (2016) define o enfermeiro especialista como sendo um profissional conceituado, preparado para área de enfermagem e outorgado a praticar. Benner (2001) descreve-o como um perito com capacidades de subjugar múltiplas dimensões deliberadas pelas teorias, tornando-se flexível às carências, raciocínio e experiências do doente, ou seja, introduz a subjetividade como uma das bases do cuidar em Enfermagem. Pode ainda ser considerado um perito desde que tenha experiência, atue e compreenda cada situação de um modo global (Miranda, 2013).

Quando nos referimos à população ostomizada não podemos descurar a importância que a pele desempenha um papel fulcral em ostomias, por isso é essencial que se mantenha saudável. A perda da sua integridade causa desconforto e dor na área afetada, reduzindo a capacidade de aderência da base adesiva à pele, além de comprometer a qualidade de vida do utente. A possibilidade de troca semanal da placa facilita a sua integridade e preservação.

A enfermagem tem a oportunidade de fazer uma profunda diferença na vida das pessoas ostomizadas sendo que a alta incidência de complicações da ostomia sugere que os utentes devem ser formalmente avaliados quanto a sintomas físicos, condições da ostomia e outros sinais de inadaptação social, ansiedade e depressão (Pringle et al., 2001).

No parecer de Morais, Seiça e Pereira (2012) as complicações do foro periestomais, podem desencadear alterações psicológicas e emocionais na vida da pessoa portadora de uma ostomia, refletindo-se na sua qualidade de vida.

Neste sentido, torna-se pertinente a otimização dos recursos disponíveis para os cuidados ao doente ostomizado, permitindo a sua otimização e gestão perante as inúmeras situações que levam este tipo de população a recorrer aos serviços de urgências, tais como: infeção, hemorragia, lesões cutâneas da mucosa, prolapso, estenose, fistula etc.